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Caderno de Campo #04 – O que aprendi depois de produzir mais de 800 obras audiovisuais

Caderno de Campo #04 – O que aprendi depois de produzir mais de 800 obras audiovisuais

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Quando fundamos a Cinese Audiovisual, imaginávamos que aprenderíamos sobre cinema.

Aprendemos.

Mas, com o tempo, descobrimos que o cinema era apenas o caminho.

O verdadeiro aprendizado sempre esteve nas pessoas.

Ao longo desses anos, atravessamos estradas de terra, ocupamos auditórios, caminhamos por aldeias, periferias, escolas, teatros, feiras populares, festivais, assentamentos e comunidades. Entramos em casas onde o café já estava servido antes mesmo de ligarmos a câmera. Conhecemos mestres da cultura popular, artistas, crianças, lideranças comunitárias, pesquisadores, trabalhadores, povos tradicionais e pessoas que talvez nunca apareçam nos créditos de um filme, mas que carregam histórias capazes de transformar qualquer roteiro.

Cada projeto mudou um pouco a forma como enxergamos o mundo.

Aprendi que nenhuma fotografia nasce apenas da técnica.

Antes de existir uma boa imagem, existe confiança.

Aprendi que um documentário começa muito antes da primeira gravação. Ele começa quando alguém percebe que será ouvido com respeito.

Também descobri que produzir audiovisual é resolver problemas o tempo inteiro. A câmera falha. A chuva muda os planos. O cronograma atrasa. O orçamento aperta. O equipamento quebra. Mas, curiosamente, quase nunca são essas dificuldades que permanecem na memória.

O que fica são os encontros.

São as conversas depois que a entrevista termina.

O almoço compartilhado.

O silêncio entre uma pergunta e outra.

A emoção de quem vê sua própria história sendo valorizada.

Ao longo da nossa trajetória, produzimos centenas de filmes, registros institucionais, videoclipes, webséries e projetos de formação. Também construímos um acervo com mais de 140 mil fotografias. Números impressionam, mas nunca contam tudo. Cada uma dessas imagens representa um momento que não volta mais. 

Talvez seja isso que mais me fascine no cinema.

Ele nos obriga a prestar atenção.

Enquanto o mundo parece correr cada vez mais rápido, o audiovisual continua exigindo presença. É preciso olhar, esperar, ouvir, compreender o tempo do outro.

Foi assim que entendi que nosso trabalho nunca foi apenas produzir vídeos.

Sempre estivemos documentando modos de viver.

Registrando patrimônios que muitas vezes existem apenas na memória das pessoas.

Criando pontes entre gerações.

Guardando histórias que poderiam desaparecer sem deixar vestígios.

Hoje, quando olho para trás, percebo que a Cinese não foi construída apenas por Alice e LeoMon.

Ela foi construída por todas as pessoas que confiaram suas histórias às nossas lentes.

É por isso que continuo acreditando que fazer cinema é, antes de tudo, um exercício de escuta.

E talvez essa seja a maior experiência que a Cinese me proporcionou: compreender que nenhuma câmera é capaz de registrar aquilo que o coração ainda não aprendeu a enxergar.


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