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Caderno de Campo #08 — Como é ser produtora audiovisual

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Caderno de Campo #08 — Como é ser produtora audiovisual

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Fazer cinema também é construir uma estrutura para continuar. O que eu aprendi com uma produtora audiovisual.

Às vezes me perguntam o que eu faço.

A resposta parece simples: sou produtora.

Mas, depois de mais de uma década fazendo isso, percebo que essa resposta esconde uma quantidade enorme de coisas.

Ser produtora é olhar para uma ideia e começar a perguntar: quanto custa? Quem precisa estar envolvido? Onde vamos filmar? Como vamos pagar? De onde virão os recursos? Que equipe precisamos? O que pode dar errado? O que precisa ser resolvido antes mesmo de alguém apertar o REC?

É cuidar da obra, mas também cuidar das pessoas que vão fazê-la existir.

É trabalhar com criação e, ao mesmo tempo, com orçamento, contrato, cronograma, edital, prestação de contas, negociação, logística e planejamento.

É aprender que um filme começa muito antes de a câmera chegar ao set.

E talvez essa seja uma das coisas que mais gosto nessa profissão: ser produtora é transformar possibilidades em condições concretas para que uma obra exista.

Há uma parte do audiovisual que quase nunca aparece na tela.

Não está no enquadramento.

Não está nos créditos.

E dificilmente aparece quando falamos sobre uma obra pronta.

É a estrutura que precisa existir para que aquele filme aconteça.

Durante muito tempo, eu também pensei no audiovisual principalmente a partir da obra: o roteiro, a fotografia, a direção, a produção, a montagem, a exibição.

Com o tempo, fui entendendo que existe outra dimensão tão importante quanto essas:

como sustentar uma trajetória para continuar fazendo filmes?

Essa pergunta mudou bastante a maneira como passei a olhar para a Cinese Audiovisual.

Uma produtora não existe apenas quando existe um projeto

Uma empresa audiovisual precisa sobreviver entre um projeto e outro.

Precisa pagar profissionais.

Manter equipamentos.

Organizar documentos.

Fazer orçamento.

Emitir nota.

Prestar contas.

Prospectar.

Estudar editais.

Construir relações.

Desenvolver projetos que talvez só encontrem financiamento meses ou anos depois.

E, principalmente, continuar acreditando em alguma coisa mesmo quando ainda não existe dinheiro para realizá-la.

Essa parte do trabalho também é produção.

Talvez seja uma das partes mais difíceis.

Porque fazer um filme durante três meses é uma coisa.

Construir uma trajetória capaz de fazer filmes durante anos é outra.

A Cinese me ensinou isso na prática

Ao longo dos anos, passamos por diferentes modelos de produção.

Projetos financiados por políticas culturais.

Parcerias com instituições públicas e privadas.

Formações.

Documentários.

Fotografia.

Projetos de patrimônio cultural.

Acessibilidade.

Eventos.

Produção executiva.

Projetos sociais.

Cada trabalho trouxe uma equipe, um orçamento, uma metodologia e uma realidade diferente.

E cada um deixou alguma coisa para o próximo.

Uma relação profissional.

Um equipamento.

Uma experiência.

Um contato.

Uma metodologia.

Um aprendizado.

Uma nova possibilidade.

É assim que uma trajetória vai se construindo.

Não como uma linha reta. Mas como uma rede.

O audiovisual também é economia

Talvez essa seja uma conversa que precisamos fazer com mais frequência.

Quando falamos de cultura, é comum valorizarmos principalmente a dimensão artística e simbólica de uma obra (e ela é fundamental.)

Mas existe também uma cadeia produtiva.

Ao longo dos anos, a Cinese esteve envolvida em projetos financiados por diferentes mecanismos públicos e privados, incluindo Lei Paulo Gustavo, Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC) e Lei de Incentivo à Cultura, entre outras parcerias.

Em um dos projetos de formação, o Cinema é Ralação, foram gerados 24 empregos na primeira edição e 33 na segunda, além de centenas de pessoas inscritas e certificadas. 

Em A Maldição do Mamulengo, uma produção que circulou pelo Distrito Federal, Goiás e Pernambuco, o projeto envolveu 54 mestres, mestras e brincantes entrevistados, 120 profissionais atendidos em toda a cadeia audiovisual e cerca de 100 horas de material bruto produzido. O filme também recebeu versões acessíveis em Libras, audiodescrição e LSE e traduções para inglês, espanhol e mandarim.

Esses números ajudam a enxergar uma coisa que às vezes desaparece quando olhamos apenas para o filme pronto.

Um projeto audiovisual movimenta pessoas, serviços, conhecimentos e recursos.

Quando uma produção contrata uma equipe, mobiliza transporte, alimentação, locações, equipamentos, profissionais de pós-produção, acessibilidade, comunicação e distribuição, aquele orçamento deixa de ser apenas o custo de uma obra.

Ele passa a circular.

E, quando uma formação profissionaliza pessoas que estão entrando no mercado, esse recurso pode produzir efeitos que continuam muito depois do encerramento do projeto.

Por isso, hoje, quando penso na trajetória da Cinese, não vejo apenas as mais de 800 obras audiovisuais realizadas. Vejo também os 15 projetos que conseguimos financiar e executar, mais de R$ 3 milhões em recursos movimentados e uma trajetória construída a partir de projetos que nasceram como ideias, foram desenvolvidos, viabilizados e chegaram à realização

São filmes, formações, projetos de patrimônio, fotografia, acessibilidade, memória e cultura. Cada um trouxe equipes, profissionais, parceiros, territórios e novas possibilidades.

Os números dimensionam a trajetória. Mas são as pessoas e os projetos que dão sentido a ela.

Vejo também as equipes que passaram por elas, os profissionais que tiveram oportunidades, os territórios que foram registrados, as pessoas que aprenderam uma nova função e as redes que foram construídas ao longo do caminho.

O projeto termina. A experiência não.

Talvez essa seja uma das coisas que mais gosto no trabalho com projetos.

Quando uma atividade termina, existe sempre a pergunta:

o que ficou?

Uma pessoa que aprendeu uma nova função.

Uma profissional que conseguiu seu primeiro trabalho.

Uma comunidade que teve sua história registrada.

Uma obra que passa a circular.

Uma técnica que poderá ser aplicada em outro projeto.

Uma relação profissional que continuará existindo.

Um território que passa a ser visto de outra maneira.

É nesse lugar que começo a entender a diferença entre entrega e legado.

Entregar é cumprir o que estava previsto.

Legado é aquilo que continua produzindo efeitos depois que o projeto acabou.

Talvez seja por isso que continuo fazendo produção

Depois de mais de uma década trabalhando com audiovisual, poderia olhar para os números e considerar que eles são a principal medida dessa trajetória.

Mas não são.

Os números ajudam a dimensionar o caminho.

Não explicam o caminho.

O que me interessa hoje é perceber como cada projeto contribuiu para construir alguma coisa que veio depois.

E talvez esse seja o sentido mais profundo de uma produtora audiovisual:

não apenas produzir obras, mas construir condições para que novas obras possam existir.

Uma empresa.

Uma equipe.

Uma rede.

Uma metodologia.

Uma formação.

Uma política de trabalho.

Uma memória.

Um futuro possível.

A Cinese continua mudando porque o audiovisual também muda.

E talvez permanecer não seja fazer sempre a mesma coisa.

Permanecer é conseguir continuar se transformando sem perder aquilo que fez você começar.

Quer desenvolver seu próximo projeto?

Se você tem uma ideia audiovisual, cultural ou social e precisa transformar essa ideia em um projeto estruturado, a Cinese pode ajudar a pensar o caminho — do diagnóstico e planejamento à execução.

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Porque realizar um projeto é também construir as condições para que ele possa continuar existindo.


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