
Caderno de Campo #06 – Lugares que Permanecem – Gênero e Diversidade
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Quem decide quais histórias chegam às telas? Uma conversa sobre gênero e diversidade
Por Alice Lira
Durante a minha formação em cinema, uma pergunta começou a me acompanhar:
quem está falando, de onde essa pessoa fala e quem está sendo ouvido?
Na época, eu estudava comunicação, cultura, representação e as relações de poder que atravessam aquilo que vemos e produzimos.
Martín-Barbero, especialmente em “Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia”, me fazia olhar para os meios não apenas como ferramentas de transmissão, mas como espaços de mediação entre cultura, sociedade e experiência. A obra propõe deslocar o olhar dos meios em si para os processos culturais e sociais que atravessam a comunicação.
Néstor García Canclini, em “Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade”, me aproximava dos deslocamentos, das fronteiras culturais e das relações entre cultura popular, cultura erudita e cultura de massas. Mais tarde, Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização ampliaria essa reflexão para as relações entre consumo, cidadania, diferenças e desigualdades.
Com Frantz Fanon, principalmente em “Pele negra, máscaras brancas”, os debates sobre colonialismo, racismo, identidade e descolonização colocavam em questão quem construiu historicamente os lugares de representação e quem teve (ou não) o direito de narrar a si mesmo e ao mundo. Mais tarde, os Estudos Culturais e autores como Stuart Hall ampliaram essas perguntas para identidade, pertencimento, hegemonia, resistência, raça, gênero e sexualidade.
Naquele momento, talvez eu não soubesse exatamente onde essas questões me levariam. Mas uma semente foi plantada, regada com outras fontes de conhecimento e experiência que iniciou sua fase produção de frutos agora.
Por isso, hoje, depois de tantos anos trabalhando com audiovisual, percebo que elas continuam presentes em praticamente todos os projetos.
Inclusive quando falamos sobre a diversidade de gênero (principalmente mulheres) ocupando posições de liderança.
Não basta colocar mulheres no set
Existe uma diferença importante entre ter mulheres trabalhando no audiovisual e ter mulheres participando das decisões sobre o audiovisual.
Podemos ter uma equipe com muitas mulheres e ainda assim concentrar as decisões em poucas mãos.
- Quem aprova o projeto?
- Quem controla o orçamento?
- Quem escolhe a equipe?
- Quem define a narrativa?
- Quem decide o que será filmado?
- Quem negocia com patrocinadores?
- Quem assina?
- Quem ocupa os espaços onde um “sim” ou um “não” pode mudar completamente o destino de uma obra?
Essas perguntas me interessam mais do que simplesmente contar quantas mulheres estão presentes.
Porque presença deste gênero é importante para a diversidade.
Mas poder de decisão também é presença.
O problema não é apenas chegar. É permanecer.
Ao longo dos anos, tenho pensado cada vez mais sobre essa diferença.
Entrar em um mercado é uma coisa.
Permanecer nele é outra.
Chegar a uma posição de liderança é outra ainda.
E permanecer nesse lugar, tendo autonomia para decidir, negociar, errar, aprender, contratar outras pessoas e construir projetos próprios exige condições que não são distribuídas igualmente.
Essa percepção também foi aparecendo na prática, dentro dos próprios projetos que realizamos.
Quando pensamos em contratar mulheres para posições de liderança e responsabilidade nos projetos, não estamos apenas preenchendo uma equipe. Estamos criando espaços concretos para que essas profissionais exerçam conhecimento, tomem decisões, construam repertório e sejam reconhecidas por aquilo que fazem.
E quando criamos, por exemplo, espaços para as crianças durante oficinas, para que mulheres participantes pudessem deixar seus filhos em segurança enquanto participavam das atividades, estamos lidando com uma barreira que muitas vezes sequer aparece nos formulários de inscrição de um projeto.
Porque dizer que uma mulher pode participar é diferente de criar condições para que ela consiga participar.
É aí que a ideia de permanência começa a ganhar outra dimensão.
Não basta abrir a porta.
É preciso olhar para o que impede alguém de atravessá-la e permanecer dentro.
Permanência também é cuidado
Essa talvez seja uma das coisas que mais aprendi produzindo projetos sociais e culturais.
Às vezes, uma pequena decisão de produção pode determinar quem consegue participar de uma ação.
- Um horário.
- Um transporte.
- Um espaço para crianças.
- Uma remuneração.
- Uma função de liderança.
- Uma formação.
- Uma rede de apoio.
São decisões que podem parecer periféricas quando olhamos apenas para o produto final.
Mas elas podem definir profundamente quem consegue estar presente no processo.
E isso também é política.
E que futuro estamos produzindo?
Essa pergunta também aparece nos nossos projetos.
Porque pensar em transformação social não deveria significar apenas resolver uma necessidade imediata.
É preciso pensar no que permanece depois que o projeto termina.
Em algumas ações, isso aparece de maneira muito concreta.
Quando fazemos doação de mudas para plantio, por exemplo, estamos pensando em algo que ultrapassa o tempo da atividade e continua crescendo depois que a equipe vai embora.
Quando investimos na profissionalização de jovens mulheres que estão iniciando no mercado de trabalho, estamos pensando em uma trajetória que ainda está começando.
Não estamos apenas formando alguém para executar uma tarefa naquele projeto.
Estamos contribuindo para que essa pessoa possa construir uma profissão, ampliar seu repertório, ocupar novos espaços e, quem sabe, futuramente liderar outros projetos.
Talvez seja essa uma das formas mais interessantes de pensar o impacto.
O que fica depois que o projeto acaba?
- Uma obra.
- Uma memória.
- Uma habilidade.
- Uma rede.
- Uma árvore.
- Uma profissional.
- Uma nova possibilidade.
E o que isso tem a ver com políticas públicas?
Para mim, essa é uma pergunta fundamental.
Porque, se identificamos que determinadas estruturas (sem diversidade) dificultam o acesso e a permanência de mulheres em posições de liderança, não basta dizer que precisamos de mais mulheres.
Precisamos perguntar:
- qual é o problema?
- onde ele acontece?
- quem é afetado?
- quais barreiras estão produzindo essa desigualdade?
- que tipo de intervenção poderia modificar essa realidade?
É nesse ponto que minha experiência com o audiovisual começa a encontrar outras áreas que hoje estudo com mais profundidade: projetos sociais e políticas públicas.
Um projeto não deveria começar apenas pela solução que queremos oferecer.
Ele precisa começar pela compreensão do problema.
E uma política pública para gênero e diversidade, e também não deveria ser construída apenas para produzir uma fotografia bonita de diversidade.
Ela precisa criar condições concretas para que as pessoas possam entrar, permanecer, decidir e transformar.
Talvez a pergunta seja outra
Durante muito tempo, a discussão sobre mulheres em determinadas áreas profissionais foi apresentada como uma questão de oportunidade:
- “Como colocar mais mulheres aqui?”
Hoje, eu prefiro uma pergunta mais incômoda:
- “O que precisa mudar para que mulheres possam permanecer, liderar e decidir aqui?”
Porque ocupar uma cadeira não é necessariamente ocupar um espaço de poder.
E estar em uma equipe não significa necessariamente participar das decisões.
Uma transformação mais profunda acontece quando a presença se converte em autonomia, reconhecimento e capacidade de decisão.
E talvez seja justamente aí que projetos sociais, cultura e políticas públicas possam se encontrar.
Não apenas criando oportunidades de entrada, mas construindo condições de permanência e possibilidades de futuro com mais diversidade.
Uma nota pessoal
Talvez esse seja um dos encontros mais interessantes da minha trajetória até aqui.
De um lado, os anos fazendo cinema, produzindo projetos, trabalhando com equipes, histórias, territórios e pessoas.
De outro, as perguntas que já apareciam na minha formação: cultura, representação, identidade, poder, hegemonia, resistência, diversidade, gênero.
E agora uma nova camada:
como transformar essas perguntas em projetos capazes de produzir mudanças concretas com diversidade, principalmente de gênero?
Hoje, quando olho para algumas das escolhas que fizemos na Cinese, percebo que elas também fazem parte dessa reflexão.
- Contratar lideranças.
- Criar condições para que mulheres possam participar.
- Profissionalizar jovens que estão começando.
- Pensar no que permanece depois da atividade.
- Plantar algo que continuará existindo.
Talvez política pública e projeto social comecem justamente aí: na capacidade de transformar uma ideia de futuro em decisões concretas no presente.
Porque falar sobre liderança feminina não é apenas falar sobre mulheres.
É falar sobre quem tem condições de participar da construção do futuro.
E essa é uma discussão que ultrapassa o cinema.
Ela é social. É cultural. E também é política.
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