
#01 Crítica: O que a gente joga no ralo?
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Por Alice Lira
O que a gente joga no ralo?
Assistir a O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, me fez retomar uma reflexão que desenvolvi no Caderno de Campo: Gênero e Diversidade #06, publicado pela Cinese Audiovisual: como as relações são atravessadas por poder, controle e pelos lugares que socialmente aprendemos a ocupar.
No filme, Lourenço constrói suas relações a partir da negociação. Pessoas, objetos, desejos e afetos passam a ter valor de troca. O outro é constantemente transformado em objeto, enquanto ele ocupa o lugar de quem decide, compra e controla. Seu poder não está apenas no dinheiro ou na possibilidade de adquirir aquilo que deseja. Está também na capacidade de determinar o valor das coisas e, principalmente, de determinar o valor do outro.
É justamente aí que o filme se torna incômodo.
Lourenço não precisa se apresentar como alguém poderoso o tempo inteiro. O poder aparece nas pequenas relações, nos gestos, nas negociações e na forma como ele se coloca diante das pessoas. Ele estabelece as regras do encontro e faz com que o outro precise jogar de acordo com elas.
O incômodo está justamente na naturalidade com que essa lógica se estabelece.
Mais do que acompanhar um personagem moralmente questionável, o filme provoca uma reflexão sobre os mecanismos que sustentam relações de poder. Quem pode controlar? Quem precisa ceder? Quem é colocado na posição de objeto? Quem tem o direito de desejar e quem é transformado em objeto do desejo de alguém?
Essas perguntas me fizeram voltar à discussão sobre gênero e diversidade. Não porque o filme possa ser reduzido a uma leitura sobre gênero, mas porque ele permite observar como determinadas relações de poder são construídas e naturalizadas. O corpo, o desejo, o dinheiro e a posição social se encontram em uma mesma estrutura de negociação.
E existe uma questão ainda mais difícil: quem consegue justificar suas próprias atitudes sem precisar se responsabilizar por elas?
Essa foi a questão que permaneceu comigo depois da sessão: é sempre mais fácil colocar a culpa no outro do que se responsabilizar por nossas próprias atitudes.
A responsabilização exige reconhecer que nossas escolhas têm consequências. Exige perceber que não estamos fora das relações que construímos. Quando colocamos toda a responsabilidade no outro, conseguimos preservar a imagem que temos de nós mesmos. O problema passa a estar sempre fora.
Lourenço parece operar justamente nesse território. Ele cria justificativas para suas ações e transforma as relações em uma espécie de sistema no qual tudo pode ser explicado pelo interesse, pela negociação ou pelo desejo.
O cinema nos permite olhar para além da justificativa.
A relação com gênero e diversidade aparece, para mim, justamente nesse exercício de observar os lugares de poder. Não apenas quem ocupa esses lugares, mas como eles são construídos, naturalizados e reproduzidos nas relações cotidianas. As desigualdades não existem apenas em grandes estruturas visíveis. Elas também aparecem nos pequenos acordos, nos silêncios, nos constrangimentos e naquilo que aprendemos a considerar normal.
É nesse ponto que O Cheiro do Ralo continua reverberando depois da sessão.
O ralo do filme acaba funcionando como uma metáfora potente para aquilo que tentamos não enxergar. Podemos tentar fazer desaparecer aquilo que nos incomoda, empurrar para longe aquilo que não queremos assumir, mas algumas coisas permanecem. Continuam ali, produzindo cheiro.
Talvez o ralo seja também esse lugar para onde jogamos nossas responsabilidades.
Aquilo que não queremos reconhecer. As consequências das nossas escolhas. Os conflitos que preferimos atribuir a alguém. As relações que insistimos em interpretar apenas a partir do comportamento do outro.
Mas aquilo que desaparece da nossa vista não necessariamente deixa de existir.
Talvez seja essa uma das potências do cinema: fazer aquilo que preferíamos não olhar voltar para a superfície.
Um filme pode terminar, mas algumas perguntas continuam trabalhando dentro da gente. E talvez uma crítica também seja isso: não explicar definitivamente uma obra, mas registrar aquilo que ela deslocou em nosso olhar.
No caso de O Cheiro do Ralo, fica uma pergunta simples e incômoda:
o que estamos tentando jogar no ralo quando escolhemos culpar o outro em vez de olhar para a nossa própria responsabilidade?
Continue essa reflexão
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