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Cadernos de Campo – Lugares que Permanecem #02

Cadernos de Campo – Lugares que Permanecem #02

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A acessibilidade começa antes da primeira tradução

Por Alice Lira

Na última semana, participei de uma conversa que começou com uma pergunta aparentemente simples.

“Seria possível utilizar Inteligência Artificial para produzir a tradução em Libras de um curso que estava prestes a ser lançado?”

A pergunta era técnica.

A resposta, descobri mais uma vez, não era.

Enquanto conversávamos sobre ferramentas, orçamentos e cronogramas, percebi que a decisão mais importante não dizia respeito à tecnologia.

Dizia respeito ao projeto.

O curso já está pronto, as gravações terminaram e equipe busca agora uma forma de incorporar a acessibilidade ao conteúdo.

Essa é uma realidade cada vez mais comum.

A acessibilidade costuma chegar quando tudo já foi decidido: o roteiro está escrito, as imagens foram gravadas, os recursos financeiros foram distribuídos, os prazos já estão apertados.

É justamente nesse momento que surgem perguntas difíceis:

“Como traduzir conceitos profundamente autorais?”

“Como preservar a identidade de uma narradora?”

“Como manter a intenção de uma fala construída para emocionar?”

“Como garantir que pessoas diferentes tenham acesso à mesma experiência?”

Percebi, mais uma vez, que nenhuma dessas perguntas pode ser respondida por uma ferramenta, porque elas não pertencem à tecnologia, elas pertencem ao planejamento.

Durante muitos anos acompanhei documentários, cursos, exposições e projetos culturais em que a acessibilidade foi pensada apenas na reta final, e quase sempre o resultado era o mesmo: muito trabalho para adaptar aquilo que poderia ter nascido acessível.

Acredito que exista uma mudança importante acontecendo.

Cada vez mais deixaremos de perguntar:

“Como colocar acessibilidade neste projeto?”

E passaremos a perguntar:

“Como este projeto pode nascer acessível?”

Essa mudança parece pequena, mas transforma completamente o processo, principalmente quando a acessibilidade participa desde o início, ela deixa de ser um custo adicional.

A acessibilidade:

Passa a orientar escolhas;

Influencia o roteiro;

O cronograma;

O orçamento;

A linguagem;

A fotografia;

A montagem;

As formas de encontro.

E é assim que cada cada pessoa vai sendo convidada a participar da experiência de uma obra acessível.

Talvez seja esse o maior aprendizado que a cultura me oferece diariamente…

As melhores soluções técnicas quase sempre nascem das melhores perguntas humanas.

E essas perguntas aparecem muito antes da primeira câmera.

Muito antes da primeira tradução.

Muito antes do primeiro orçamento.

Elas aparecem quando escolhemos quem queremos incluir na história que estamos prestes a contar.

Alice Lira

Caderno de Campo – Lugares que Permanecem #02

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