
Cultura, escola e patrimônio: o papel das políticas públicas no Mamulengo em Foco
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Por: Alice Lira
Um clique pode eternizar aquilo que a memória coletiva insiste em manter vivo. No caso do mamulengo — o teatro de bonecos popular do Nordeste — cada gesto, cada personagem e cada riso do público carregam séculos de tradição, humor e crítica social. Registrar essa brincadeira por meio da fotografia é também um ato de preservação cultural.
É dessa perspectiva que nasce o projeto Mamulengo em Foco: A Arte da Fotografia Preservando a Tradição, iniciativa realizada pela Cinese Audiovisual, em parceria com Candiá Produções, Associação Fuzuê de Arte e Culturae o Grupo Mamulengo Fuzuê. A proposta articula fotografia, teatro popular e educação para ampliar o acesso da juventude ao patrimônio cultural brasileiro.

Entre outubro e novembro de 2025, o projeto levou uma programação cultural para escolas públicas de Samambaia (DF), reunindo exposição fotográfica, apresentações de mamulengo e rodas de conversa sobre memória e patrimônio cultural. A iniciativa aproximou estudantes e educadores de uma manifestação reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, promovendo o encontro entre tradição popular e ambiente escolar.
Cultura como direito e política pública
A realização do projeto foi viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (SECEC-DF), do Governo Federal e do Ministério da Cultura.
Políticas públicas culturais como a PNAB têm papel fundamental na democratização do acesso à cultura. Ao apoiar iniciativas de artistas, coletivos e produtores culturais, essas políticas fortalecem redes criativas, preservam manifestações tradicionais e ampliam o alcance da arte em diferentes territórios.
Como observa Maria da Glória Gohn (2011), políticas públicas voltadas à cultura e à educação contribuem para a construção da cidadania ao ampliar o acesso da população a experiências culturais que fortalecem identidades coletivas e processos formativos.
No caso do Mamulengo em Foco, o investimento público permitiu que a cultura popular chegasse diretamente ao espaço escolar, criando uma experiência formativa que conecta arte, memória e educação.
Cultura nas periferias: o direito ao acesso
Samambaia é uma das regiões administrativas mais populosas do Distrito Federal e também uma das que enfrentam maiores desigualdades de acesso a equipamentos culturais. Apesar de ser reconhecida como um território fértil em produção artística, a oferta de atividades culturais estruturadas ainda é limitada.
Levar o mamulengo para dentro das escolas públicas da região significa afirmar que o acesso à cultura é um direito, e não um privilégio concentrado nos grandes centros culturais da cidade.
Ao circular por escolas públicas, o projeto cria experiências de pertencimento e reconhecimento cultural para jovens que muitas vezes têm pouco contato com manifestações tradicionais brasileiras.
Nesse sentido, iniciativas culturais em territórios periféricos dialogam com o conceito de gestão social, entendido como processos participativos voltados à construção coletiva de ações públicas orientadas para o desenvolvimento social e comunitário (TENÓRIO, 2008).
Patrimônio vivo em diálogo com a juventude
O mamulengo foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2015 e, em 2025, passou também a integrar a lista de bens registrados como patrimônio cultural imaterial do Distrito Federal.
Mais do que um espetáculo, o mamulengo reúne elementos de música, oralidade, crítica social e improvisação, transformando a brincadeira em uma forma potente de expressão cultural.
No projeto Mamulengo em Foco, essa tradição ganha novos sentidos ao dialogar diretamente com estudantes do ensino médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A combinação entre exposição fotográfica, apresentação teatral e roda de conversa cria um ambiente de aprendizado coletivo, no qual os alunos podem compreender a dimensão histórica e cultural dessa manifestação.
Uma rede de criação e preservação cultural
O projeto também revela a importância da articulação entre diferentes agentes culturais. A Cinese Audiovisual, produtora responsável pela realização da iniciativa, atua há anos na documentação e difusão de manifestações culturais brasileiras.
A fotógrafa Alice Lira, sócia-fundadora da Cinese e idealizadora do projeto, integra o Grupo Mamulengo Fuzuê e desenvolve há mais de uma década um trabalho de registro visual da cultura popular. As imagens reunidas na exposição são resultado dessa trajetória de pesquisa, convivência e documentação artística.
O Mamulengo Fuzuê, formado por artistas itinerantes que circulam entre o Centro-Oeste e o Nordeste, mantém viva a tradição do teatro de bonecos ao apresentar espetáculos que combinam música, humor e improvisação.
A Candiá Produções, responsável pela assessoria de comunicação do projeto, também integra essa rede de articulação cultural, contribuindo para ampliar a visibilidade pública da iniciativa e fortalecer o diálogo entre cultura, sociedade e políticas públicas.
Cultura, educação e desenvolvimento sustentável
Além de fortalecer o patrimônio cultural, o projeto dialoga diretamente com princípios da Agenda 2030 da ONU, especialmente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados à educação, redução das desigualdades e preservação cultural.
Entre eles, destacam-se:
- ODS 4 – Educação de qualidade, ao integrar arte e formação cultural no ambiente escolar
- ODS 10 – Redução das desigualdades, ao ampliar o acesso à cultura em territórios periféricos
- ODS 11 – Cidades e comunidades sustentáveis, ao valorizar o patrimônio cultural imaterial
- ODS 16 – Instituições eficazes, ao fortalecer políticas públicas culturais.
A integração entre cultura e desenvolvimento também dialoga com a perspectiva de Amartya Sen (2010), para quem o desenvolvimento deve ser compreendido como ampliação das liberdades humanas — incluindo o acesso à educação, à cultura e à participação na vida social.
Cultura como memória coletiva
Ao reunir fotografia, teatro popular e educação, o projeto Mamulengo em Foco reafirma o papel da cultura como instrumento de construção de memória coletiva.
Segundo Pierre Nora (1993), os chamados “lugares de memória” são elementos materiais ou simbólicos que preservam e transmitem experiências coletivas ao longo do tempo. Nesse sentido, a fotografia pode atuar como um dispositivo de registro que transforma o instante efêmero da apresentação em memória cultural duradoura.
As imagens registradas ao longo de mais de uma década documentam não apenas espetáculos, mas também encontros entre artistas e público, tradições transmitidas entre gerações e formas de resistência cultural que persistem ao longo do tempo.
Levar esse acervo para dentro das escolas significa devolver à comunidade parte de sua própria história, permitindo que novas gerações reconheçam o valor das manifestações culturais que moldam a identidade brasileira.
Mais do que registrar o mamulengo, o projeto contribui para garantir que essa tradição continue viva — não apenas nos palcos e empanadas, mas também na memória e na imaginação das futuras gerações.
Referências
GOHN, Maria da Glória. Educação não formal e cultura política. São Paulo: Cortez, 2011.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, 1993.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
TENÓRIO, Fernando Guilherme. Gestão social: uma perspectiva conceitual. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 42, n. 2, 2008.


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